Hoje, dia 19 de agosto, é marcado por ser o Dia Internacional da Fotografia, instrumento artístico, político e científico. Criada no século XIX, a fotografia foi uma invenção europeia que por muitos anos foi destinada e controlada pelos olhares de pessoas brancas, dentoras de poder e controle de narrativas visuais.
A fotografia passou a ser também um instrumento de resistência ao passar dos anos. Olhemos para os arquivos negros dentro do Brasil, constituídos por um imenso patrimônio de imagens, histórias e memórias negras que demonstram a importância de tantos fotógrafos negros trazendo luz às diferentes formas de existir e viver.
É necessário celebrar aqueles que estiveram por trás das lentes com olhares sensíveis a registrar e preservar histórias que jamais podem ser apagadas:
- Januário Garcia: Nasceu em Belo Horizonte em 1943. Sua atuação tanto como fotógrafo quanto como ativista fez com que ele viajasse por 27 países, registrando sempre que possível a população negra da diáspora em nações como a Colômbia, Uruguai e Venezuela. Ao longo da sua trajetória, ele foi um importante personagem da história dos movimentos sociais brasileiros, colaborando para a produção de novos imaginários em torno das populações negras e das manifestações culturais do país.

- Lita Cerqueira: É fotógrafa autodidata, conhecida por seus registros da cultura negra brasileira. Trabalhou no cinema como fotógrafa de cena e como atriz, ao lado de diretores como Glauber Rocha, entre outros. O reconhecimento profissional veio a partir da exposição Festas Populares da Bahia e Arquitetura no Centro Histórico de Salvador, em 1976. Participou de exposições coletivas e individuais no Brasil e no mundo, e suas fotografias foram publicadas em livros, revistas, capas e encartes de discos.

- Walter Firmo: Nasceu no subúrbio carioca e desde cedo se encantou pelo colorido de casarões, paisagens e pessoas dos arredores; ingressou ainda jovem na fotografia. Desde então, passou por algumas das principais publicações do país, entre elas o Jornal do Brasil, a então novata Realidade, Manchete e Veja, para se tornar conhecido como o mestre da cor. Ganhou numerosos prêmios, lançou mais de dez livros e foi um articulador cultural como diretor do Departamento de Fotografia da Funarte.

- Lázaro Roberto: Consolidou-se como um dos grandes protagonistas da fotografia afro-brasileira. Como fundador do Zumvi Arquivo Fotográfico, ele não apenas registrou, mas ressignificou a trajetória e a resistência da população negra na Bahia, criando um acervo essencial para a memória do país. Com um olhar que une fotografia documental e experimental, seu trabalho se transforma em ato político. Aos quase 70 anos, o fotógrafo que dedicou sua vida a documentar a história do povo negro no Brasil inaugura, enfim, sua primeira exposição individual assinada com seu próprio nome.

José Ezelino: Em 1889, um ano após a abolição do regime escravocrata, nasceu José Ezelino da Costa, negro e fotógrafo cuja história está contada na parede da entrada do salão paroquial. Filho de uma mulher ex-escravizada, Bertuleza Maria da Conceição, ele fotografou os membros da sua família com vestes aristocráticas. Ezelino foi o autor dos retratos de estúdio que compuseram o álbum da própria família: mãe, irmãs e sobrinhos passaram a ser “modelos fotográficos”. Escolheu representar a si e aos seus de modo similar àquele encontrado nas imagens aristocratas e burguesas, em contraste com a esperada representação do negro à época.

Sebastião Pires de Oliveira: “Tião: um fotógrafo da Providência” é dedicada à obra de Sebastião Pires de Oliveira (1943-2015), conhecido como Tião, fotógrafo e morador da região portuária do Rio de Janeiro. A mostra reúne registros em sua maioria inéditos, produzidos entre as décadas de 1960 e 1980. Resultante de encomendas feitas ao fotógrafo por moradores do Morro da Providência, o conjunto revela cenas do cotidiano, dos moradores da comunidade, das celebrações populares, da paisagem da cidade e dos vínculos afetivos que marcaram um Rio de Janeiro em constante transformação.

Eustáquio Neves Eustáquio Neves é químico de formação e fotógrafo autodidata. Eustáquio desenvolveu uma linguagem experimental marcada pela manipulação química de negativos e cópias, misturando muitas vezes fragmentos de diversos negativos diferentes. Suas obras abordam identidades e memórias afro-brasileiras. Em Retrato falado, projeto vencedor da Bolsa de Fotografia ZUM/IMS 2019, reconstruiu o retrato do avô, que não conheceu e de quem não tem imagens nos álbuns da família, a partir de descrições de parentes e de recursos analógicos e digitais de manipulação fotográfica.

Nada mais especial do que celebrar esses artistas tão únicos e talentosos no Dia da Fotografia. Suas imagens compõem os arquivos brasileiros, um dos maiores da diáspora africana. Cada um, com suas singularidades, é fundamental para a manutenção da memória negra brasileira. Viva a fotografia negra e a sua importância para a história do nosso país!