Nascida no Espírito Santo, Taynara Barreto é fotógrafa e artista visual com atuação na produção artística, curadoria e articulação comunitária. Seu trabalho parte de uma urgência: recontar as histórias da cultura popular capixaba e das comunidades negras do sul do estado, devolvendo-lhes visibilidade, afeto e protagonismo.
Ao longo de sua trajetória, Taynara tem se dedicado ao registro de manifestações afro-brasileiras e expressões populares, como o Caxambu do Horizonte, entendendo a fotografia não apenas como documento, mas como ato de resgate, reconhecimento e permanência.

“A fotografia em que acredito nasce da necessidade de preencher uma lacuna deixada pelo racismo estrutural. Contar essas histórias é mais que registro. É um ato de reconectar-me à ancestralidade e ao conhecimento que o racismo tentou apagar.”
Sua relação com a imagem é íntima e política. Como ela mesma afirma, foi através da fotografia que pôde se reaproximar da brasilidade negada por tanto tempo, e transformar o encantamento pela cultura em um gesto de resistência. A câmera, para Taynara, é também um instrumento de escuta e devolução de dignidade, um modo de tornar visível o que antes foi silenciado.
Em suas imagens, a ancestralidade não é apenas um tema: é uma força vital que atravessa gerações, orienta o olhar e guia o fazer artístico. Taynara compreende a fotografia como um ato de continuidade, um modo de manter vivos os saberes e os afetos que sustentam as tradições afro-brasileiras.
“A oralidade ocupa um lugar central no meu processo. Ela é o contra-arquivo que mantém vivas histórias que os registros oficiais apagaram. Tento carregar comigo esse entendimento: a oralidade se transforma em performance de memória, evocando tambores, cânticos, danças e afetos.”

Essa perspectiva ecoa em seus projetos e exposições, que funcionam como inventários afetivos das comunidades que retrata. De Alegre a Cachoeiro de Itapemirim, seu trabalho já circulou em exposições no Brasil, América Latina e espaços virtuais, compondo um mosaico visual que reafirma a potência das culturas populares capixabas.
Taynara é integrante do Coletivo 028, iniciativa que impulsiona a cena fotográfica capixaba com foco em ações coletivas e formação de mulheres negras na fotografia. Ela reconhece que, num campo ainda dominado por homens brancos, o coletivo foi espaço de aprendizado, pertencimento e visibilidade:
“Sem a ação coletiva acredito que jamais teria alcançado notoriedade sozinha. Para mulheres negras, que vêm de espaços onde o desenvolvimento da arte é quase nulo, as ações coletivas consolidam o fazer fotográfico.”
A dimensão comunitária de sua trajetória reflete a consciência de que ninguém chega sozinha, especialmente quando a arte é atravessada por desigualdades estruturais de raça, gênero e território.
Taynara compreende a fotografia como um ato de reescrita da história, uma maneira de tensionar e reinventar o olhar sobre os corpos negros.
“Durante muito tempo, as pessoas negras foram representadas no Brasil a partir de um olhar externo […].
Minhas imagens buscam romper com essa lógica […].
É uma forma de recontar histórias a partir de dentro, de afirmar a complexidade da experiência negra e de contribuir para que nossas memórias não só sobrevivam, mas sigam inspirando e transformando o futuro.”
Em seu trabalho, a imagem deixa de capturar para começar a devolver, devolver presença, escuta, beleza e humanidade. É uma fotografia que não apenas mostra o mundo, mas o reconstrói a partir da experiência negra, feminina e popular.
📸 Conheça mais do trabalho de Taynara Barreto no Instagram: https://www.instagram.com/barretotay/
Sobre o projeto
O Projeto Olhos Negros mapeia fotógrafos/as/es negros/as/es de todo o Brasil, reunindo dados, trajetórias e poéticas visuais que revelam a diversidade da produção fotográfica contemporânea.
Para participar do mapeamento, acesse o formulário disponível em: https://forms.gle/4pqT9wFEav9QchLt6